A menina descia a ladeira de pedras lisas e brilhantes em sua bicicleta, o vento balançava o cabelo com toda rebeldia; sacolejava seu corpo para lá e para cá, pulando seus braços e pernas como um canguru, os pensamentos da guria voavam como o vento que passa rápido. Ela fechou os olhos e mergulhou naquela aventura. Lá embaixo, virando a esquina, tinha um muro com uma pintura desgastada, e a toda velocidade a menina abre os olhos, e sente que não vai conseguir fazer a curva. Num ímpeto de entrega, ela se solta e mergulha em direção ao muro.
Quando já estava bem perto, fechou os olhos novamente e pensou: “ Agora já vou partir para o além”...e de repente sentiu um impacto e a bicicleta rompeu o muro e a viagem continuou, ela desceu ainda mais com os olhos fechados, e quando abriu, viu que corria em um campo de trigo, que balançava com a brisa e brilhava como ouro. O chão era de terra, mas a bicicleta fluía sem trepidar, ela abriu os braços e disse: “ Estou no além e aqui é bonito”, pegou impulso e correu ainda mais rápido.
Estar no além a deixou muito feliz. Sentiu paz, nada a incomodava. A menina pedalou pelo imenso campo de trigo e teve uma súbita lembrança de já conhecer aquele lugar, mas de onde? Nunca tinha ido em um trigal. Nesse momento, foi diminuindo a velocidade da bicicleta, até que finalmente parou. Olhou para o horizonte, o céu azul bem claro com o sol resplandecente, sentou-se no chão, ofegante.
Sentada no meio do trigo, só ouvia o bailar das folhas secas em contato com as sementes do campo. O movimento das plantas parecia uma orquestra em um dia de estréia. Olhando mais de perto ela pôde perceber as pequeninas flores do trigo - mesmo que minúsculas - todas juntas formavam um lindo arranjo na imensidão.
Com os pensamentos ainda atordoados, ela se levantou, balançou a poeira do short jeans e seguiu empurrando a bicicleta; caminhando em meio ao trigal, alcançou uma estrada de terra empoeirada. Bem ao longe avistou um pequeno casebre, a estrada parecia não ter fim. Seguiu andando, mas não cansava, não sentia calor excessivo, por mais que caminhasse muito, só ouvia o som do vento zunindo em seus ouvidos.
Depois de muito caminhar foi se aproximando do casebre. Era um lugar? Ou uma paisagem? Caminhou mais e mais... quando parecia se aproximar, o casebre se distanciava. Então ela pensou: “devo estar sonhando”. Quando olhou para trás, o campo de trigo ainda balançava ao comando do vento. O brilho era tão intenso, em perfeita sincronia, como se fosse um tapete dourado.
A menina montou na bicicleta, correu o mais rápido que pôde e alcançou o casebre. Ele, com portas e janelas de madeira, desabitado, mas intacto, apesar do tempo. Encostou a bicicleta na parede da casa e empurrou a porta, que rangeu ao pequeno toque das mãos; olhou em volta e não viu ninguém. Lá dentro tinha um banco de madeira e uma cama com uma colcha de retalhos. Lembrava a que sua bisavó havia costurado para sua cama quando ainda era pequena. O fogão a lenha estava aceso, mas a casa não tinha moradores.
Deitou-se na cama e por lá ficou, o que parecia ser uma eternidade. Pensou em um pão quentinho de cravo e canela, e nesse momento, o pão estava sobre o fogão e todo o casebre foi inundado pelo cheiro. Ela levantou, pegou o pão e comeu; o gosto era maravilhoso, derretia na boca, não se lembrava de ter comido um pão tão apetitoso. Depois de comer até a última migalha, deitou novamente na cama e dormiu.
Quando acordou, a noite já tinha chegado. Ela foi até a janela, a abriu e olhou o céu estrelado. Era tudo tão escuro que ela não enxergava nem a própria mão, até que, andando pelo casebre encostando nas paredes, trombou a mão em um lampião. Ao seu lado havia uma caixa de fósforo já bem desgastada; tirou dela um palito, riscou e acendeu. Foi até a porta e sentou-se no degrau. Seus pensamentos iam longe, na sua casa, a mãe deveria estar preocupada.
Nada fazia sentido para ela naquele momento. Se ali era o além, onde estariam as outras pessoas? Qual o sentido dela estar ali? E o que ela pensava se materializava. Lembrou da sopa de feijão que a mãe fazia e logo a sopa apareceu no fogão; a lenha trepidava por baixo, ela pegou uma tigela em cima da mesa e tomou a sopa devagar, apreciando cada grão de feijão, os condimentos salpicavam um sabor delicado. Voltando para a porta, ficou olhando o céu, as estrelas dançavam na imensidão, a lua foi aparecendo por trás das nuvens e logo reinou no céu estrelado.
O dia amanheceu lindo, o vento batia com força nas janelas de madeira, a menina abriu os olhos e tentou se lembrar de onde estava. Aos poucos sua memória foi voltando - a ladeira, a bicicleta, o muro de pintura desgastada, o impacto, o campo de trigo e o casebre. Ela sentou-se na cama, não se lembrava de que hora tinha ido dormir, só lembrava que estava apreciando o céu na noite passada. Olhou para o fogão e a lenha trepidava em fogo azul, vermelho e amarelo, na chapa do fogão: uma leiteira saindo fumaça e um bolo de milho, na mesa, uma xícara e um pratinho ao lado.
A menina se sentou e tomou o leite quentinho, comeu o bolo de milho e indagou consigo mesma: “ Por que toda comida desse casebre é tão gostosa?”. Terminou seu desjejum e saiu do casebre. Pegou a bicicleta e foi em disparada pela estrada, não sabia aonde iria, mas ia à algum lugar e foi correndo pelo estrada empoeirada, alcançou o campo de trigo e atravessou ele correndo, mas não tinha fim.
A tarde já anunciava a sua chegada. Quando a menina parou de pedalar, surpreendentemente, estava novamente no casebre. Andou em círculos o dia todo, aquele lugar parecia ser só um campo de trigo, uma estrada e um casebre, e frustrada com essa descoberta, entrou para o casebre, deitou na cama exausta, quando sentiu que havia uma lombada debaixo do colchão. Levantou e achou um livro, na capa estava escrito: “Ficar ou voltar?”.
Quando ela folheou o livro, as páginas estavam em branco, nada fazia sentido, ficar ou voltar, o que significava essas palavras. Ficar? Onde? Voltar? Para onde? A cabeça dela estava a mil, queria respostas sobre que lugar era aquele. Ela teria mesmo morrido? A noite chegou e ela nem percebeu, só quando não conseguia mais ver o título do livro é que se deu conta de que a escuridão tinha tomado o casebre. Dessa vez ela ficou quieta, deitada na cama, queria dormir e dormiu. Sonhou que estava debruçada na janela do casebre e o seu irmãozinho caçula gritava por ela dizendo: “Venha Nana, venha embora para casa, sai dessa janela”.
A menina acordou assustada, olhou em volta no casebre e o dia já tinha amanhecido. No fogão, da chaleira saía fumaça e as torradas estavam sobre um tabuleiro. Ela levantou, pegou o livro, sentou na mesa e tomou o chá de maçã; era o seu preferido. Comeu as torradas e deu uma olhada em volta. Despediu do casebre, montou na bicicleta e saiu correndo pela estrada. Entrou no trigal e corria com tanta velocidade que o trigo roçava a sua pele, como se quisesse arranhar. O vento assobiava como se falasse com ela para que ficasse ali no campo de trigo. Ela fechou os olhos e foi em linha reta, quando sentiu o impacto do tombo e apagou.
Acordou caída no chão próximo ao muro, algumas pessoas a cercavam. Uma senhora segurava sua bicicleta que estava toda empenada, e um senhor balançava a menina sem parar, dizendo: “Acorde menina! Vamos, abra seus olhos! Acorde, acorde…”. Ela sentou-se no chão, olhou para o muro e ele estava intacto. Ela levantou com a ajuda das pessoas, estava ainda meio cambaleando. Alguém perguntou onde ela morava e ela apontou o dedo para a quinta casa depois da curva.
O senhor veio trazendo a menina segurando-a pelo braço e a senhora veio atrás empurrando a bicicleta. Chegando em casa ele bateu palmas e a mãe veio atender. Ficou muito nervosa quando viu a menina cheia de hematomas. O senhor já foi explicando que quando ela fez a curva, perdeu o controle e caiu da bicicleta. A mãe agradeceu, colocou a menina para dentro, encostou a bicicleta que estava destruída na varanda, enquanto, no sofá, o irmãozinho assistia o desenho.
Quando ela entrou, o irmãozinho disse: “Nana, o que você estava fazendo na janela do casebre no quadro de parede da mamãe?”. A menina olhou assustada para o menino e depois para o quadro na parede, um lindo campo de trigo e lá longe um casebre. Ela não sabia o que dizer, olhou para o livro em sua mão, e nele estava escrito Ficar ou voltar. Ela folheou todas as páginas que estavam, diferente de antes, escritas. Na contra capa, estava escrito o nome da biblioteca da escola na qual ela estudava. Então lembrou que voltava da escola quando caiu. Depois da mãe tratar os ferimentos, ela tomou um bom banho e sentou-se na cozinha em que a mãe assava pão de cravo e canela e bolo de milho. A chaleira no fogão fervia o chá de maçã, ela abriu o livro e começou a ler.
texto escrito por Daise.



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